julho 24, 2008
Arte e ciência de batizar personagens
Cada vez mais me convenço de que dar nome a um personagem de ficção exige um talento raro, algo mais ou menos equivalente a acertar o martelo bem na cabeça de um prego minúsculo numa sala às escuras. Grandes escritores nem sempre têm esse talento -se a gente pensar bem, por exemplo, "Félicité" é uma escolha meio óbvia para o nome da protagonista de "Um Coração Simples", do Flaubert (bastava pensar em algo que fosse o exato oposto da vida da personagem, e voilà). Por sua vez, o Stephen Dedalus do Joyce e o Humbert Humbert do Nabokov são escolhas inspiradas. Outros autores não conseguem sustentar ao longo de um livro inteiro o alto nível de inspiração do batismo dos personagens: as coisas que li do Lima Barreto sempre me dão a impressão de que, num determinado ponto, ele se desinteressava da história, terminava de qualquer jeito e ia fazer outra coisa mais interessante, talvez beber. Mas "Policarpo Quaresma", o nome, é excelente -o caráter patético transparece antes mesmo que o personagem apareça no romance. Basta citá-lo.
Fora do mundo etéreo da alta literatura também há excelentes exemplos. Citei Aguinaldo Silva, o novelista acaju, no meu post de ontem. Não acompanho novelas, misturo umas com as outras e certos diálogos fazem meus ouvidos sangrarem, como acontece com o Alexandre. Mas quem há de negar que batizar um personagem que é ex-jogador de futebol e tem a cara do Paulo Gorgulho como Ataliba Timbó é um toque de gênio? Vale o mesmo para o nome completo do Sr. Barriga do seriado "Chaves", que é Zenón Barriga y Pesado -percebam como "Zenón", ainda mais com esse acento do espanhol, é perfeito para caracterizar uma pessoa rotunda.
Mas, para mim, o exemplo canônico da coisa é uma tirinha do Arnaldo Branco que não consigo mais achar na internet, em que ele batizou um artista plástico "transgressor" de Elmo Cariacica. Acertar o prego no escuro é isso, senhores. "Dez! Nota dez!", como gritaria o Carlos Imperial.
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julho 23, 2008
Chamem o Aguinaldo (ou o Hugo)
Fernando Meirelles disse o óbvio: a tal Operação Sagatiba dá uma boa novela. A começar, digo eu, pelos nomes dos personagens -"Protógenes Queiroz" é um negócio totalmente Aguinaldo Silva, que ficaria perfeito ao lado de Osnar, Ataliba Timbó ou Ypiranga Pitiguary. E Daniel Dantas poderia interpretar seu homônimo-do-mal. Claro, fôssemos um povo mais ambicioso e a história seria filmada por um Costa-Gavras, talvez com Gian Maria Volontè, o "cidadão acima de qualquer suspeita", como DD. Mas no Bananão, onde tudo começa e termina em chanchada, os "formadores de opinião" se dividem entre escalar o Zé Lewgoy como Gilmar Mendes ou como Protógenes. (Único modo viável de sobrevivência: adotar o imperativo categórico dercyano e mandar o país à puta que o pariu.)
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julho 22, 2008
Modesta proposta para a Bienal
Jackson Pollock Five -cinco caras cantando e dançando em cima de uma tela, para espalhar bem a tinta. Arte abstrata, mas com groove. Espero que seja mais bem recebido que meu projeto anterior, Umberto Eco & the Bunnymen (infelizmente, ninguém gostou da idéia de trocar Ian McCulloch pelo barbudinho lendo alguns trechos de "Apocalípticos e Integrados").
(A trilha sonora do post está aqui embaixo. Podem clicar.)
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julho 21, 2008
Uma lição de amor à vida
"Eles estavam na merda, mas nem por isso deixaram de dançar."
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julho 18, 2008
Mr. Guavaman's Jukebox
Hoje temos 18 minutos de Saint John Coltrane para vocês: "Olé", principal faixa de "Olé Coltrane", último disco do saxofonista para a gravadora Atlantic (pela qual ele lançou obras-primas como "Giant Steps" e "My Favorite Things") antes de sua transferência para a Impulse. Na música em questão, que deve ter sido a primeira que ouvi dele (nos anos 80, numa rádio de SP -believe it or not), o sax soprano de Coltrane é acompanhado por Eric Dolphy (flauta), Freddie Hubbard (trompete), McCoy Tyner (piano), Art Davis e Reggie Workman (baixo -sim, são dois baixistas) e Elvin Jones (bateria). Gosto desse álbum a ponto de ter mandado fazer uma camiseta com a capa; espero que lhes apeteça. Bom final de semana.
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julho 17, 2008
Cinema escrito
Anthony Lane, da "New Yorker", é o crítico de cinema cujos textos mais gosto de ler. Há quem não o aprecie, embora o considere bom escritor; os argumentos contra ele costumam ser do tipo "não é a Pauline Kael" (dããã, não diga), "é pop demais", "suas críticas chamam mais a atenção para si mesmas do que para os filmes". Quanto ao segundo argumento, não acho que seja necessariamente um defeito; ao contrário, considero virtude estilística não atravancar o texto com exibições de erudição cinéfila no estilo Hércules-de-feira-mostrando-os-bíceps. E o terceiro ponto não é um problema, sobretudo quando se trata de maus filmes (talvez uma crítica destrutiva de Lane seja a melhor razão para a existência de um filme ruim).
Todo esse preâmbulo só para dizer que, embora não esteja interessado em ver "Wanted" , gostaria de ter escrito o texto do Lane sobre o filme, que começa assim: "What is it like being Timur Bekmambetov? No artist should be confused too closely with his creations, but anybody who sits through 'Wanted', Bekmambetov’s new movie, will be tempted to wonder if the life style of the characters might not reflect or rub off on that of the director. How, for example, does he make a cup of coffee? My best guess, based on the evidence of the film, is that he tosses a handful of beans toward the ceiling, shoots them individually into a fine powder, leaves it hanging in the air, runs downstairs, breaks open a fire hydrant with his head, carefully directs the jet of water through the window of his apartment, sets fire to the building, then stands patiently with his mug amid the blazing ruins to collect the precious percolated drops. Don’t even think about a cappuccino. The great thing about Bekmambetov is that even the mildest of devices spur him into helpless exaggeration".
(Quem quiser ler mais pode ir ao site.)
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julho 16, 2008
Rubens De Falco is watching you
Eis aí a explicação para meus posts rápidos e rasteiros: o bicho tá pegando na senzala. Nhonhô até que é bom pra mim, mas nem sempre dá para largar a moenda e vir postar. Volto quando o Leôncio estiver distraído.
(Roubei o pôster, sensacional, lá do RTFM.)
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julho 15, 2008
Scientia vinces
Adoraria ver algum estudo da Universidade de Walamaloo mostrando que o consumo de hectolitros de café é a chave para a vida longa e saudável. Mas aposto que, antes disso, sairão centenas de outros provando, por exemplo, que o colesterol bom é ainda pior que o ruim. Quando a pesquisa redentora do café chegar, estarei morto -de overdose de cafeína, bien sûr.
Expelido por Ruy Goiaba at 10:19 PM Comentários (4)
julho 14, 2008
Como fas/: favor enfiar
Crianças, aprendam: escrever como um retardado disléxico não é cool se você não for o Cersibon -e nem ele acerta sempre. O nome disso é abuso do, ahn, recurso retórico. Fora que esse povo fica se fazendo de mongo e depois não consegue voltar (é verdade que alguns deles nunca foram).
Expelido por Ruy Goiaba at 01:44 PM Comentários (6)
julho 13, 2008
Edição extra, Mr. Guavaman's Jukebox
Graças a uma dica preciosa da Anna nos comentários, fiz o upload daquela música que eu queria. Decidi não esperar pela próxima sexta, já que o clima por aqui convida a um Brahms bem gelado e não há risco de sermos pegos no bafômetro. Aqui vai, pois, o primeiro movimento (allegro non troppo) da primeira sonata dele para violoncelo e piano, com o cellista romeno Emil Klein e o pianista alemão Wolfgang Manz. Bom domingo!
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julho 11, 2008
Mr. Guavaman's Jukebox
A idéia era pôr um pouco de música erudita no blogue, mas a que eu queria -o primeiro movimento da primeira sonata do Brahms para violoncelo e piano- tem 13 minutos e meio, e o MP3Tube só aceita arquivos de até 10 minutos (o site, aliás, tem requerido uma boa dose de paciência para fazer uploads). Então, vamos de música pop mesmo, com uma das minhas bandas sessentistas preferidas, os Zombies. "A Rose for Emily" está no álbum que é considerado a obra-prima deles, "Odessey and Oracle" (sim, com "odyssey" escrito errado), de 1968. Esse disco, que saiu quando a banda já acabara, contém o hit "póstumo" "Time of the Season", de onde os Mutantes tiraram a linha de baixo de "Ando Meio Desligado".
A canção da jukebox de hoje, que pegou emprestado o título (mas não a narrativa) de um conto do William Faulkner, soa como um cruzamento de duas obras dos Bizorros, "Eleanor Rigby" e "For No One". A versão que posto hoje é uma faixa bônus da edição de aniversário do álbum, com a inclusão de um violoncelo no arranjo -espero que não lhes desagrade.
Bom fim de semana.
Expelido por Ruy Goiaba at 02:56 PM Comentários (4)
julho 10, 2008
Dislexia, eu quero uma pra viver
Hoje bati os olhos na manchete
PRESIDENTE DO STF MANDA LIBERTAR DANTAS E MAIS 10
e li
PRESIDENTE DA CBF MANDA ESCALAR DUNGA E MAIS 10.
(No Bananão, todas as "leituras erradas do jogo" estão corretas.)
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julho 09, 2008
Operação Sagatiba
Eu falei, não falei? A pê-efe ainda vai fazer uma Operação Imperativo Categórico. Tenho de reconhecer que, desta vez, eles se superaram -a ação que rendeu as manchetes do dia tem nome em sânscrito, que significa "firmeza na verdade". Sejamos francos: puta viadagem. Imagino shitstorms de uma ou mais semanas ("não vamos tocar o terror ainda; precisamos achar um nome que traduza o CONCEITO da operação") até alguém ter a idéia luminosa -provavelmente, algum dublê de puliça e praticante de biodança. Amigo meu pouco fluente em sânscrito está chamando a tal Satyagraha de Sagatiba, o que faz sentido considerando a sagatiba que o Ed Harris cover e os outros lá levaram pela popa. Outro, porém, ponderou que esse nome seria mais adequado se a ação envolvesse aquele habitante do Alvorada que não passa pelo bafômetro. Eu me abstive de comentar.
(Olhem as fotos dos jornais e reparem em como o Naji Nahas mantém aquele jeito meio amarrotado de quem acabou de sair de uma noitada no Gallery, exceto pela falta do uiscão na mão direita. Talvez seja um resumo do raissoçaite bananesco: da pê-efe ao Gallery, do Gallery à pê-efe e assim sucessivamente, riding high in April, shot down in May etc. That's life.)
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julho 08, 2008
Pequena antologia goiabal
Konstantinos Kaváfis (1863-1933)
If unexpectedly, in middle night,
an unseen company be heard to pass,
with music and with voices exquisite, —
turn not away and uselessly lament
your fortune that is giving in, your work
that came to nothing, the projects of your life
that proved illusory from first to last.
As one prepared long since, as fits the brave,
bid now farewell to the departing city,
farewell to the Alexandria you love.
And above all, do not deceive yourself:
say not that your impression was a dream,
that, it may be, your hearing played you false:
to futile hopes like these never descend.
As one prepared long since, as fits the brave,
as most fits you who gained so great a city,
approach the open window steadily,
and with emotion, but without the plaints
and supplications of the timorous,
listen — knowing it to be your last delight —
listen to the elysian sounds, the exquisite
instruments of the mystic company;
and bid farewell to the city you are losing,
farewell to the Alexandria you love.
("The God Forsaketh Anthony", "O Deus Abandona Antônio", na tradução de John-Constantine, irmão do poeta. Recomendo a visita a este site aqui.)
Expelido por Ruy Goiaba at 12:44 PM Comentários (4)
julho 07, 2008
It was fifty years ago today
Mentira, não é hoje -foi no domingo retrasado. Mas acho que ainda vale o linque: aqui, vocês podem ver na íntegra o 5 a 2 do Brasil sobre a Suécia na final da Copa de 1958. Além de aprender a pronúncia correta, em sueco, de palavras como "Pelé", reparem em como o Sargento Pereira ensinava o bando a jogar -por exemplo, logo depois do primeiro gol da Suécia, no sensacional lançamento para a corrida de Garrincha. O príncipe etíope de rancho (copirraite do Nelson Rodrigues) tem de constar do meu pequeno dicionário ilustrado -no verbete "elegância", ali ao lado do Duke Ellington.
Expelido por Ruy Goiaba at 03:31 PM Comentários (2)
julho 04, 2008
Mr. Guavaman's Jukebox
A trilha sonora do dia é Helen Merrill, ótima cantora de jazz que merece ser mais conhecida, sobre quem já escrevi aqui. A música é "You're My Thrill", faixa de abertura do álbum "The Feeling Is Mutual", de 1967, o primeiro dos dois que ela gravou em parceria com o pianista Dick Katz (o segundo, de 1968, chama-se "A Shade of Difference"; ambos são vivamente recomendados pela casa). Espero que apreciem. Bom final de semana!
Expelido por Ruy Goiaba at 02:21 PM Comentários (2)
julho 03, 2008
The internet is broken
Camaradas leitores, estou postando com a força do pensamento e o auxílio de um método complicado que envolve um modem destruído pela picareta que matou o Trótski, uma galinha preta kosher, uma foto do Bill Gates de ponta-cabeça e um corcunda ralado (esse último ingrediente, segundo o Cony, vai bem em qualquer prato). Se você está em São Paulo e é vítima da Telefônica, provavelmente não está lendo isto aqui, com o que aliás não perde nada (as usual). O que eu quero é recomendar, com atraso, que vocês visitem a mais nova aquisição do portal -o Elite Triste, onde Sébastien Salé documenta aqueles momentos na vida dos muito ricos que o programa do Amaury Jr. corta na ilha de edição. Vão lá se compadecer.
Expelido por Ruy Goiaba at 08:43 PM Comentários (3)
junho 27, 2008
Mr. Guavaman's Jukebox
A trilha sonora de hoje é James Carr -grande cantor de soul music que sofria de distúrbio bipolar e, por isso, teve sua carreira abreviada. Carr gravou basicamente do meio para o fim dos anos 60, chegou a fazer um comeback nos anos 90 e morreu em 2001, aos 58 anos. O fato de ele estar morto, naturalmente, não o impede de ter um MySpace, onde vocês podem ouvir clássicos como a música mais conhecida dele, "The Dark End of the Street" . Para a jukebox, escolhi "To Love Somebody" -sim, aquela mesma dos Bee Gees, melhorada em uns 200%. Bom fim de semana.
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junho 26, 2008
O ano que não terminou de encher o saco
Tá bom, eu já sei que em 1968 o mundo todo libertou o Mandela. Deve ser por isso que há 40 anos vivemos num interminável show da Anistia Internacional, ouvindo Simple Minds sem parar. Já deu. Virem o disco
-ou troquem por um do Serge Gainsbourg- e passemos ao ano seguinte.
Expelido por Ruy Goiaba at 02:30 PM Comentários (6)



